terça-feira, 25 de agosto de 2009

PRÓLOGO

O Padre Francesco Cezari havia acabado de desfazer suas malas em sua nova estadia no Brasil: A Paróquia Família de Nazaré, em Santa Estefani. Todos os anos um Padre novo chegava para assumir as responsabilidades do lugar, mas naquele em específico, havia interesses maiores em jogo.
Acomodado no pequeno quarto no alto da torre da Igreja, o Padre fazia as últimas arrumações. Não seria tão difícil, visto que o espaço era composto por uma cama de solteiro, um guarda-roupa de madeira antigo com vestígios de degradação pelos cupins e uma televisão de catorze polegadas em cima de um criado-mudo de duas gavetas.
Outro italiano talvez reclamasse das instalações, mas não Francesco. Ele já havia passado por situações piores e, além de tudo, sua recompensa por estar ali poderia valer muito mais.
Enquanto estudava os folhetos de liturgia para as celebrações que seguiriam no ano, alguém bateu à porta. Ele sabia quem era, por simples eliminatória de opções.
O Padre se levantou da cama, e com dificuldade, abaixou-se para guardar os folhetos em uma das gavetas do criado-mudo. Devagar, caminhou até a porta e a atendeu.
—Padre, desculpe-me pelo incômodo, mas já é hora.
A mulher, apesar de aparentar ser apenas uma simples dona de casa brasileira, falava um italiano impecável. Eliane Salgado fora uma das fundadoras da paróquia e a servia desde então. O contato indispensável com a Itália em suas funções a obrigava a aprender a língua de diversas maneiras. Atualmente, Eliane era a única apta a receber os novos padres, especialmente os da Itália. Isso a tornava dona de um segredo importantíssimo para a Paróquia e talvez para o resto do mundo.
Francesco concordou balançando a cabeça e com dois passos para fora se deu o espaço necessário para fechar a porta e trancá-la. Ele sabia que não podia ser simpático, muito menos demonstrar isso à sua Anfitriã. Devo ser imparcial, pensava e repetia o pensamento a si mesmo, criando convicção e coragem para agir daquela maneira.
A porta do pequeno quarto dava direto para uma escadaria de metal estreita, o que impediu Eliane de puxar conversa com o Padre, além do fato de perceber que ele não estava com uma cara muito amigável. Eliane estranhava aquilo em Francesco. Padres Italianos, ao menos os últimos que ela recepcionara sempre lhe pareceram muito carismáticos. O que aquele teria de diferente?
Os dois desceram as longas escadarias de metal em círculos até chegarem a uma porta de vidro. Eliane gesticulou um pedido de passagem enquanto tirava um volumoso molho de chaves de um dos bolsos do convencional par de calças jeans. O padre estreitou-se contra a parede do corredor de escadas dando espaço a ela para destrancar a porta, levando os dois ao sacrário da Igreja, sala onde as pessoas que compunham o altar reuniam-se alguns minutos antes de se iniciar as missas.
Padre Francesco então, pela primeira vez na noite dirigiu a palavra a Eliane, em italiano seco e ríspido:
—Para onde seguimos, dona Eliane?
Ela percebeu que o Padre estava querendo apenas acelerar as coisas, mas não se deixou levar pelo nervoso. Respondeu categórica, continuando seu caminha até a porta de saída da Igreja:
—Apenas siga meus passos, Padre Francesco. Posso lhe garantir que o que irei mostrar-te é de grande interesse — fez uma pausa para voltar a cabeça para trás encarar o padre. — E também muito importante. Espero que se lembre.
Francesco Cezari escutou tudo o que queria desde que chegara ao Brasil. Sua missão era estudar ali, os mais estranhos fatos e segredos. Esperava que aquele fosse o primeiro.
Caminhando atrás de Eliane, sentiu vontade de puxar alguma conversa, como sabia que era natural de seu feitio. Não resistiu:
—Padre Leo, hã? Uma figura bem consagrada por aqui. Na Itália também falavam muito dele. Foi realmente um caso de assassinato?
Enquanto atravessava a dupla porta de vidro, Eliane surpreendeu-se por um lado e sentiu monotonia por outro com a pergunta do novo padre. Era um milagre perceber que ele havia procurado uma conversa aleatória, mas sem dúvida, era uma curiosidade considerável. A polêmica de Padre Leo atingira o país inteiro, e também certas áreas na Itália, de onde ele descendia.
—Não temos dúvida disso. Ele fazia trabalho missionário por aqui, além de ser Padre. Tinha um barraco em uma das favelas da serra e costumava ficar por lá durante os fins de semana para tentar amenizar um pouco o grande índice de tráfico de drogas, de armas, e até mesmo da violência que estava em um pé incontrolável na época. Leo morreu por causa disso. Morreu por tentar salvar as pessoas do mundo perdido. Morreu como um mártir.
Francesco Cezari sentiu certa exigência de respeito no tom de voz de Eliane e captara a mensagem. Afinal, um acontecimento tão trágico deveria realmente ter mobilizado toda a comunidade.
—E quem o fez? Quem teve a coragem quando o trabalho dele era em prol de todos?
—Não foi coragem, padre. Foi covardia — Eliane abaixou a cabeça enquanto caminhava pelo pátio exterior da capela. — O medo de se perder o que se lucrou com o crime é muito maior que a resistência ao sangue frio.
Ele entendera perfeitamente o que Eliane quis dizer, e sentiu-se inocente após ouvir tal resposta.
—Os traficantes sentiram que poderiam ser gravemente ameaçados com a campanha de Padre Leo. Armaram a morte dele há muito tempo para que não houvesse suspeitas individuais quando o crime acontecesse. Dois meses depois do ocorrido, a polícia deu o caso como encerrado. Sem identificação do assassino.
Justiça eficiente existe no Brasil, pensou o Padre italiano, confirmando alguns boatos que ouvira sobre o país no mundo afora. Ao analisar tais fatos, Francesco começou a se questionar. O que será que aquela paróquia especificamente escondia? A curiosidade só aumentava e ele não deixava de ligar os pontos do resto da conversa. Teriam eles um depósito de drogas ou armas em solo sagrado? Faziam justiça com as próprias mãos contra o crime organizado da cidade? Ele sabia que essas perguntas não faziam sentido. Seria tudo muito normal.
O pátio de fora da Igreja levava também a um prédio um tanto mais alto que a torre da capela, onde trabalhos sociais eram realizados. No primeiro andar se encontrava uma sala de vídeo, a cozinha e uma sala especial onde os coroinhas se reuniam. O segundo andar era composto por seis pequenas salas onde lecionavam catequese. O terceiro andar era um grande anfiteatro, extremamente moderno, utilizado para aluguel para grupos de teatro e musicais como fonte de arrecadação de fundos para manter o local. Dona Eliane e Padre Francesco, porém, seguiram um pouco além do anfiteatro.
—Prepare as pernas um pouco mais padre. Temos ainda um curto lance de escadas para subir.
Francesco procurou, mas por pouco tempo outro lance de escadas e o encontrou logo atrás de si. Eram alguns poucos degraus, mas a idéia de subi-los ainda assim o cansava, considerando os tantos que ele atravessara alguns segundos atrás.
Eliane continuou percorrendo os degraus e no final deles, abaixou o corpo para abrir
uma pequena porta de madeira. Quando o fez, sumiu das vistas do padre que acelerou os passos para alcançá-la.
A pequena porta lançava aos olhos um grande galpão coberto com um forro de madeira por todos os lados, tanto no chão, quanto no teto, quanto nas paredes. Mas não foi aquilo que chamara a atenção de Francesco.
Telas de pintura se estendiam pelo lado esquerdo do galpão enquanto que montes de instrumentos musicais se amontoavam no canto direito. Mesas fixadas ao forro de madeira ficavam no centro da sala e próximo aos instrumentos musicais logo à frente dos olhos do padre, esculturas de diversas formas pareciam encará-lo.
—Padre Francesco, este é o ateliê de arte da paróquia Família de Nazaré.
Francesco ficou confuso. Como um ateliê, onde provavelmente crianças e jovens freqüentavam diariamente poderia esconder um segredo de tamanha gravidade?
—Dona Eliane, perdoe-me a franqueza, mas pensei que fosse me mostrar algo que tivesse mais importância, algo realmente grave, de comprometimento e sigilo. Desde que pisei nessa igreja, fui informado que ela guarda um grande segredo. Quer-me dizer que é apenas um ateliê de arte?
—Padre, tenha certeza de que o que estou para lhe revelar é algo suficientemente grave para levar a população mundial a um pânico absoluto. É um dos maiores segredos da história
Ele olhou em volta do ateliê, esperando que sua própria inteligência lhe mostrasse o segredo. Não conseguiu e voltou os olhos para a anfitriã, que riu ao perceber que o padre sabia pedir com os olhos.
Eliane apontou um local a ele e lhe deu instruções de olhar exatamente para o objeto em questão.
—Mas... É só uma caixa preta. Aparentemente muito bela, por ser ornamentada.
Eliane puxou de dentro de um dos bolsos da calça jeans um papel, uma folha de sulfite completamente dobrada e a entregou nas mãos do padre.
—Quando terminar de ler, encontre-me lá embaixo, na saída deste prédio. Aposto que o senhor terá muitas perguntas a me fazer.
Francesco não fez objeção, sabendo que em qualquer circunstância era melhor que ele estivesse sozinho ao saber de um segredo da magnitude que lhe haviam descrito.
O padre desfez cada pequena dobra da folha de papel e foi percebendo que as letras eram escritas de uma maneira muito antiga, porém com as modernas marcas de uma fotocópia, uma xerox. Mulher esperta.
A partir do momento em que ele colocou os olhos no papel, não os tirou até ler a última linha, boquiaberto. Olhava para o sulfite e para o objeto de novo, até assimilar o máximo que conseguia. Com segundos de pensamento, sabia que fora enviado para o lugar certo. Ele também já tinha suspeitas mais claras sobre o assassinato de Padre Leo.
Agradecendo mentalmente mais uma vez pela anfitriã tê-lo deixado a sós com a revelação, ele puxou do bolso seu celular e discou uma grande série de números. Do outro lado da linha, um inglês oriental penetrou forte em seus ouvidos. Ele respondeu imediatamente:
—Aqui é Francesco Cezari. Preciso falar com o diretor, com urgência. Informe-o que são as notícias que ele esperava.

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