segunda-feira, 7 de setembro de 2009

CAPÍTULO 3 - UM CHOQUE DE EMPATIA



Mais de uma hora de espera. Estão querendo ver esse lugar em pedaços?


Sophia Goldman sabia que não podia, mas começou a ponderar se largar sua vida em Miami valeria a pena após ter chegado ao cubículo onde agora se encontrava, que mais parecia uma clínica hospitalar do que um escritório. Quatro paredes brancas e um balcão a frente de três fileiras de bancos estofados cor vinho. Atrás do balcão, uma prateleira de arquivos se estendia em seu comprimento, centralizada na parede. Ao lado esquerdo, um estreito corredor aparecia aos olhos de quem estivesse sentado.
Sophia se segurava à poltrona para não levantar e avançar o corredor, mas infelizmente, a assistente que a acompanhara até o local pedira com educação para que ela não o fizesse. O pedido educado não era problema algum, mas manter a etiqueta em tais momentos era como um código de honra para a jovem americana. Ela sabia de suas responsabilidades e qual era seu lugar.
O curioso era que dentro da uma hora em que ela permaneceu sentada naquela sala morta e silenciosa, nada aconteceu e ninguém além da assistente sorridente cruzou o lugar.
O tempo foi passando e, de repente, o único som audível dentro do cubículo passou a ser o irritante tic-tac do relógio da parede acima do balcão. Os ponteiros agora mexiam-se claramente percorrendo os quatro algarismos romanos. Sophia já podia até ver o ponteiro que marcava as horas se mexer em seu lento eixo de giro.
Aquilo fora o cúmulo para a moça que se levantou da poltrona e se preparou para utilizar sua garganta. Ela se acalmou imediatamente, ao ouvir o bater da porta de madeira do cubículo soar.
—Com licença.
Os olhos de Sophia pararam de encontro com os do homem que adentrara a sala que lhe irritara durante uma hora, essa que mais lhe pareceu um dia inteiro. Ela não pôde evitar a atração natural que sentiu instantaneamente pelo moreno de olhos negros que parou por um momento a trocar olhares com ela.
Ele era magro, porém não esquelético. Sophia considerava aquele tipo de corpo perfeito, vendo que a camiseta amarela salientava as pequenas curvas de músculos nos braços e no tórax. Usava calças jeans e um par de tênis esportivo branco. O rosto coberto por um cavanhaque discreto misturava a juventude com o ar de maturidade. O bronze que cobria sua pele era bem tropical, o que a fez julgar que o rapaz fosse latino.


Os olhos de Paulino de Souza tentavam decifrar o verde cintilante dos olhos da moça que encontrara de pé na sala de espera que o amigo Barry Quinn indicara para que eles se encontrassem. Era engraçado, mas Paulino o havia esquecido completamente.
A moça que tomara totalmente sua atenção tinha a pele branca e ao longe parecia ser extremamente macia e os cabelos castanhos ondulavam mechas loiras sobre o rosto, descendo até a altura dos ombros. O corpo esbelto e torneado milimetricamente se destacava nas calças pretas e justas de poliéster e na blusinha branca levemente decotada, denunciando os seios médios que o mestre recém-formado não evitou reparar.
É melhor não estar de brincadeira comigo, Dr. Quinn, pensou, tentando descobrir em silêncio de onde viera tão bela moça que de repente estava parada com os olhos magneticamente presos aos dele, no mesmo lugar, na mesma hora, e sozinha.
A hipnose se desfez quando um som de porta batendo ecoou na sala de espera. Ao despertar, Paulino desajeitado ergueu a mão direita em direção a moça, segurando suas pastas e cadernos com a outra.
—Prazer, meu nome é Paulino de Souza. Professor de Filosofia e Teologia.
Sophia sentiu-se desconcertada, mas manteve a postura de uma dama apertando a mão do rapaz e se apresentando, devolvendo seu inglês perfeito ao amador que ele havia demonstrado:
—Sophia Goldman, alquimia e ocultismo. Muito prazer, professor.
Os dois voltaram por alguns segundos ao silêncio desconcertante após as apresentações, o que não deixou Sophia muito à vontade. Não demorou muito até que ela tentasse puxar papo com o professor de novo:
—Estranho o lugar parecer completamente vazio e de repente ouvimos uma porta bater com um estrondo ao fundo, não?
—Nem me fale — o rapaz sentou-se, arrumando as tralhas no colo. — Mas tenho certeza que isso é coisa do louco do meu amigo que me chamou aqui.
Amigo? Ao ouvir aquilo, Sophia se interessou pela conversa. Estar dentro do SSRCC era uma parte de seu plano que já estava prestes a se concluir, mas conhecer alguém que já tivesse contatos tão próximos facilitaria muitas coisas.
—O senhor tem um amigo aqui, professor?
—Sim, sim. É o dr. Barry Quinn.
Touché. O homem que a entrevistaria era o amigo do professor.
Cansada de manter a postura, dirigiu-se para perto do mais novo colega, sentando-se ao lado dele. Arrumou a bolsa em seu colo, pousou as mãos sobre ela e devagar cruzou as pernas, a esquerda sobre a direita.
—A boa notícia é que estamos esperando pela mesma pessoa, professor.
—Imaginei — Paulino sorriu para a moça. — Ouvi dizer que este lugar tem recebido muitas pessoas, de todos os ramos. Espero ter vindo para o lugar certo.
Tal frase tocara o coração de Sophia profundamente. Ela já não sabia mais para onde estava indo. Tinha de mudar de casa, de país, muitas vezes até de nome para continuar com seu trabalho. Será que daquela vez, tudo poderia terminar?
—Eu também, professor. Eu também.
—Por favor, me chame de Paulino. Acho que seremos colegas a partir de hoje, certo?
Sophia sorriu e deixou que o rapaz o percebesse.
—Okay, okay. Contanto que passe a me chamar de Sophia. Acredito que o respeito deve ser mantido no mesmo nível.
—Considere este acordo feito — os dois se olharam mais uma vez, como fizeram quando Paulino entrou pela primeira vez naquela sala. Ele sentiu o equilíbrio de freqüências em que os dois estavam, algo como sentira poucas vezes antes.
Sophia percebeu que estava preste a cair na hipnose de olhos mais uma vez e se fez despertar antes que ficasse por mais tempo em tal transe. A etiqueta era algo que ela ainda precisava manter. Rapidamente, pensou em algo fútil para esticar a conversa com o professor, não sabendo quanto tempo mais teria de ficar esperando.
—Então, Paulino — fizera questão de frisar o nome para tornar a conversa agradável, — de onde vem? Seu nome e seu rosto me deixaram curiosa, mas também em dúvida. Além do mais, seu inglês não é dos melhores.
Ela sorriu antes que Paulino pensasse que foi uma ofensa, que logo sorriu de volta demonstrando ter entendido a intenção.
—É uma longa história, Sophia. Mesmo assim não justifica o meu inglês não ter melhorado em tantos anos...
No momento em que ia contar sua história, Paulino fora interrompido pela figura que avançara o estreito corredor ao lado do balcão. Baixinho, gordo, um cavanhaque claro no rosto em contraste com o cabelo escuro e lambido para os lados, chegando a altura dos pequenos óculos arredondados. Mas nada era mais confirmador que o sanduíche gigante que pesava em suas mãos.
—Não acredite nele, moça. Nada justifica o fato de falar esse inglês medíocre depois de estudar por quase 8 anos em Oxford. Além do mais, não temos tempo para essa conversa agora, certo Little Paul?
Barry Quinn estava agora na frente de seus convidados com um belo sorriso amarelo no rosto, sem saber que o clima não estava nem um pouco amigável se tratando do tempo que os fizera esperar. Ao perceber que não estava sendo bem recebido, lembrou-se de pedir desculpas pelo atraso:
—Meus amigos, peço que me perdoem pelo enorme incômodo de permanecer nessa sala durante tanto tempo. A questão é que estou com muito trabalho ultimamente e eu acabei me esquecendo de vocês.
Paulino sorriu. Conhecendo a peça à tanto tempo, não resistira a perdoá-lo.
—Larga desse papo furado, Barry! Você devia estar tirando um belo cochilo lá dentro!
Barry Quinn sorriu de volta ao amigo que se levantou para ir cumprimentá-lo. Um forte abraço não pôde ser evitado pelos dois que há muito tempo não se viam. Após alguns tapas fortes nas costas um do outro, seguraram-se pelos braços, não evitando a felicidade de terem se encontrado mais uma vez.
Sophia ainda estava sentada em uma das poltronas da sala, observando a cômica cena entre os amigos, tentando se esquecer do tempo que estivera esperando por alguém ali. Quem não os conhece diria que eles são extremamente homossexuais.
—Não vamos nos estressar Little Paul. Você reclama como se não tivesse gostado de passar esse tempinho ao lado da bela doutora Sophia — Jogando a cabeça de lado, desviando o olhar do corpo de Paulino e correndo-o direto para Sophia, Quinn deu uma piscadela. O rosto da moça praticamente se pintou em rubro, assim como as orelhas de Paulino.
—Sinceramente, doutora Sophia, peço zilhões de desculpas. Não acredite em Little Paul quando ele diz que eu estava dormindo. A verdade é que realmente estou cheio de trabalho, os senhores não fazem idéia do quanto.
Sophia, ainda sentada, arrumou as mechas do cabelo que estavam cobrindo seu rosto para poder encarar o rechonchudo anfitrião.
—Até aceito suas desculpas, doutor Quinn, mas preciso de uma explicação urgente sobre o que eu vim fazer aqui exatamente.
O professor ao ouvir a reivindicação da nova colega encarou o amigo com olhos pedintes:
—Estou no mesmo barco, camarada.
—Fiquem tranqüilos, amigos. Conversaremos sobre esses detalhes agora mesmo, durante um bom gole de café. Acompanhem-me, por favor.
Barry Quinn abriu o balcão para o corredor ao lado esquerdo e o seguiu. Paulino olhou para Sophia logo atrás que estava levantando sorridente agora que finalmente sua situação seria resolvida.

domingo, 30 de agosto de 2009

CAPÍTULO 2- DOIS MUNDOS. DOIS OBJETIVOS. UM LUGAR

Três anos atrás...


Era uma manhã fria nas ruas de Miami. Sophia Goldman estava em seus trajes sociais se dirigindo ao seu escritório. Desde o momento em que acordara, seu celular não parou de tocar. Era uma ligação que ela estava esperando, mas não estava tão segura de que queria atende-la. Mensagens de texto foram enviadas quando perceberam que ela não queria atender. Era óbvio que precisavam muito dela, ou que era alguém que tinha ordens restritas para fazer aquilo.
Durante o dia no trabalho, Sophia manteve-se pensativa e distraída. Nada saía de sua cabeça a não ser aquele telefonema, o qual estava esperando há um mês. Ele poderia ser tudo aquilo que ela esperava e precisava para concluir sua missão, porém poderia também destruir sua vida social para sempre.
Ao fim do dia, saiu do escritório e dirigiu rápido até seu apartamento. Era um lugar onde ela poderia pensar com calma, sem acelerar nenhum dos processos que já estavam a todo vapor em sua mente.
Ao chegar, olhou para sua sala, e lá encontrou, da mesma maneira como havia deixado, suas malas prontas e arrumadas. Os móveis haviam sido retirados do local, assim como ela havia solicitado pela manhã. Naquele momento ela percebeu que sua decisão já havia sido tomada há muito tempo, talvez desde quando nascera. Sophia tirou o celular da bolsa mesmo antes de fechar a porta do apartamento.
—Olá, sou eu.
—Senhorita Goldman? — a voz feminina e o sotaque britânico foram reconhecidos por Sophia — Tentamos encontrá-la o dia inteiro, onde esteve?
—Isso não é importante agora — com o pé, Sophia fechou a porta e foi caminhando até a janela da sala, observando o pôr-do-sol. — Preciso saber o que descobriram. Temos boas informações?
—Senhorita Goldman, as informações são preciosas. Nossas pesquisas podem com certeza obter resultados no SSRCC, porém, não temos ninguém além da senhorita capacitado o suficiente para conseguir entrar naquele prédio como uma empregada.
Sophia suspirou olhando pela janela, como se estivesse se despedindo da praia de Miami. Seus olhos já estavam se enchendo de lágrimas, mas ela logo se conteve, sabendo que deveria dar sua palavra final.
—Eu posso viajar amanhã de manhã. Esse lugar fica no Cairo, certo?
—Exato, senhorita! Tenha certeza de procurar por Barry Quinn. Ele quem está procurando pelos profissionais. Eu tenho algumas diretrizes aqui e...
—Não se incomode por favor. Eu me viro. Obrigada.
Sophia Goldman desligou o celular e começou a discar outro número, sem mesmo escutar o que a moça do outro lado da linha tinha a lhe falar. Essa conversa, sabia ela, seria muito pior, mesmo que a outra pessoa não estivesse do outro lado da linha para replicar.
Essa é a caixa postal de James Bright. Deixe seu recado após o sinal.
—Oi, querido. Eu sei que não deveria estar fazendo isso por telefone, muito menos na situação em que estamos agora. Eu simplesmente não sou quem você pensa que sou. Eu sou uma pessoa horrível e jamais deveria ter me envolvido contigo, sabendo que qualquer dia isso poderia estar acontecendo. Só quero que você saiba que eu te amo, incondicionalmente, e que eu jamais vou te esquecer, mas a partir de amanhã, você não vai mais me ver, nunca mais. Por favor, me perdoe. Eu tenho certeza que nosso casamento no mês que vem seria maravilhoso, e que nós seríamos um casal muito feliz, com nossos filhos e a casa linda que você escolheu. Mas a vida tem seus jogos e não adianta lutar contra eles. Me perdoe por tudo, pois nunca mereci seu amor. Beijos de sua para sempre amada, Adrienne Goldberg Bright.
Após desligar o celular pela segunda vez naquela noite, Sophia o jogou no chão e pisou nele até que se fizesse em pedaços. Após isso, tirou a aliança de noivado que havia ganhado de James Bright e a devolveu a sua caixinha. Colocou-a junto a outras três em uma caixa um pouco maior. Nesse momento, não resistiu e caiu em lágrimas, jogando-se ao chão em um dos cantos do quarto que já havia sido esvaziado.


Paulino de Souza cruzava os pátios da universidade de Oxford desfilando em sua beca com o diploma nas mãos. O mestrado em filosofia e arte religiosa era sua meta desde que entrara na faculdade. O mundo dos segredos das religiões e igrejas sempre lhe fascinara, afinal, muitas verdades sobre a vida dos homens ainda poderiam estar escondidas em algum lugar nesse ramo.
Há um ano, quando teve férias, Paulino viajou para o Brasil, sua terra natal, para visitar o pai. Ele desejava nunca ter feito aquela viagem. A viagem que lhe entregou uma missão importantíssima e de alta responsabilidade e lhe tirou o pai para sempre de sua vida.
Enquanto perambulava pelos pátios da faculdade que fora seu sonho desde que começara a estudar, pensava em quais seriam seus próximos passos. Ele tinha uma missão importante e deveria cumpri-la, não só em nome do pai, mas por saber que o mundo inteiro dependia disso. Ele só não sabia por onde começar. Ao observar tudo o que tinha conquistado, pensou se algo envolvido naquilo podia ajudá-lo.
Como um raio de luz para sua mente, seu celular vibrou dentro do bolso da calça social. Com dificuldade buscou-o dentro do bolso e ao olhar o visor, um nome familiar, porém surpreendente, tomou sua visão. Decidiu até sentar-se para atender a ligação do velho amigo. Procurou por um canteiro longe do povo que passava para lá e para cá e acomodou-se.
Barry Quinn começara a faculdade de filosofia ao seu lado, mas desistira no primeiro semestre. Disse que precisava estar mais em contato com as coisas ao invés de apenas estudá-las. Ele passara a estudar arqueologia, e pelo que Paulino havia escutado, ele se tornara bastante renomado em suas pesquisas. A última façanha fora a idéia de desenvolver um robô que perfurasse as paredes das câmaras escondidas das pirâmides do deserto de Gizé no Cairo, enterradas pelas areias do tempo.
—Little Paul? — a voz com sotaque forte falava alto nos ouvidos de Paulino, que reconheceu a simpatia do amigo ao ouvir seu apelido — Como vão as coisas na Inglaterra, camarada?
—Vão ótimas, meu velho! — Paulino demonstrava empolgação ao falar com o amigo — O que te deu na cabeça de me ligar assim? Acabei de me formar, estou vestido em uma beca!
—Beca? — Paulino pôde ouvir a gargalhada falhando seguida de tosse de Barry Quinn. — Essa eu pagaria para ver! Então já é um mestre na arte entediante da filosofia?
Paulino riu levemente ao ouvir a clássica piada do amigo e logo retrucou:
—Qual é, amigão, você sabe que não é uma arte! Mas corte o papo furado, aposto que não ligou só para lembrar-se do amigo. Tem muito mais debaixo desse seu sotaque pomposo.
—Não vou mentir, Little Paul, você me pegou. Fica muito difícil para você arrumar as malas?
Esse gordo ficou louco.
—Já estou com as malas prontas. Tenho de ir para o Brasil hoje à tarde. No que você está pensando?
—Não estou pensando em nada. Você vai vir para o Cairo hoje. Troque a passagem que eu estarei lhe esperando no aeroporto assim que você chegar.
Paulino sabia que aquele desespero era clássico do velho Quinn. Ele realmente precisava fazer uma visita ao Cairo, mas não quando estava tudo planejado para o retorno a sua terra natal.
—Está louco, Quinn? As coisas não funcionam assim, eu tenho de...
—Só escute o que tenho para lhe falar, okay? — Quinn interrompeu o amigo, sabendo que ele pararia para ouvi-lo — O que você diria se soubesse que seu amigo e camarada Barry Quinn está trabalhando para um grupo chamado SSRCC?
Os olhos de Paulino se arregalaram, como se a informação que Quinn lhe passara fosse totalmente impossível. Ficou quieto, esperando ouvir que mais argumentos o amigo teria:
—Pasmo, hã? Agora é melhor procurar um lugar pra beber água, ou uma cama pra se deitar. E se eu te dissesse que eles estão querendo te contratar? O que você me diria?
Um momento de silêncio se fez entre os dois amigos. Paulino olhava para um lado e para outro e tentava conter a emoção de ter ouvido tal proposta.
—É melhor que não esteja mentindo, amigo. Quando eu estiver pra pousar, te ligo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

CAPÍTULO 1 – TÃO ÍNTIMOS, TÃO ESTRANHOS.

Longe do Brasil, a quatro horas de fuso-horário, Paulino de Souza e Sophia Goldman terminavam uma longa e maravilhosa noite de amor. Sorridentes, abraçados em cima de sua cama de casal entrelaçando suas pernas, enrolados por um lençol fino.
—Eu te amo. De verdade.
Paulino disse convicto ao beijar a testa da amada. Ela não precisou responder com palavras quando olhava de volta e sorria, os olhos verdes dela penetrando nos negros dele. Ela suspirou e se agarrou ao forte corpo dele, fechando os olhos e desejando não estar em lugar algum, nunca mais.
—Queria eu saber que podemos ficar assim para sempre, Paulino. Você sabe o quanto é difícil para mim, saber que eu não posso declarar isso para o mundo?
—Ei, baby — Paulino sussurrou em seus ouvidos e lhe deu um beijinho na testa. — Nós dois sabíamos o quanto isso ia ser difícil. Nós dois temos segredos que não podemos revelar nem um para o outro, e sempre soubemos disso. É claro que eu queria desistir de tudo, sair desse lugar e te levar para ter uma vida normal. Mas nós dois sabemos que não podemos.
Sophia sorriu e lhe deu um selinho rápido, levantando da cama nua e indo até um cabide pegar seu roupão de banho.
—Você é estranho, Paulino. Eu quero dizer, como você consegue conviver comigo, sem nunca ter me feito uma pergunta sobre meus segredos, minha vida antes desse lugar que me fez vir parar aqui. Como você consegue?
Paulino de Souza não saiu da cama, e respondeu com calma e simplicidade:
—Isso é fácil, Sophia! Você pode me perguntar o quanto quiser, como já fez várias vezes, mas eu não vou te contar o porquê de eu vir parar nesse lugar. Todo mundo aqui tem seus próprios segredos e os consideram vitais para a conclusão de seus trabalhos, assim como você e eu. Não é justo que eu te cobre algo que eu não possa dar em troca — Ele levantou-se da cama, colocou seu roupão e se aproximou da moça, encarando-a profundamente. Começou então a falar mais baixo: — Sophia, você tem de acreditar em nós até o dia em que tivermos coragem de jogar esses objetivos no lixo, para sempre, e pudermos nos concentrar só em nós dois. Nós não podemos ter essa conversa de novo, ela me assusta!
Sophia fechou os olhos, enxugando-os, pois estavam começando a lacrimejar. Com as duas mãos, percorreu o rosto do amado e pressionou seus lábios contra os dele em um longo beijo. Após terminar, ela se deu conta do que acontecera.
—Me desculpa, Paulino. Eu fico pensando todos os dias que vão nos separar. Estão mandando cada vez mais gente para longe para estudar esses milagres, e eu sinto que logo nós vamos ter de entrar nessa também.
Ao perceber a sinceridade nas palavras de Sophia, Paulino a abraçou forte e colocou sua cabeça junto à dela. Esperou até que a emoção à flor da pele que os tinha tomado no momento passasse para tentar novamente confortá-la com suas palavras.
—Eu sei que é hipocrisia da minha parte se eu te disser que não tenho medo disso. Mas nós não podemos deixar nos abalar. Por mais que nos separem, eu nunca vou me esquecer de você. Eu vou estar contigo em cada pensamento do seu dia, não importa onde eu esteja. Eu prometo.
Ambos sabiam que suas vidas por si mesmas podiam afastar um do outro a qualquer momento. Ambos sabiam que não havia remédio, mas já não podiam parar o que haviam começado. O coração era traiçoeiro... Ou seriam suas mentes?

PRÓLOGO

O Padre Francesco Cezari havia acabado de desfazer suas malas em sua nova estadia no Brasil: A Paróquia Família de Nazaré, em Santa Estefani. Todos os anos um Padre novo chegava para assumir as responsabilidades do lugar, mas naquele em específico, havia interesses maiores em jogo.
Acomodado no pequeno quarto no alto da torre da Igreja, o Padre fazia as últimas arrumações. Não seria tão difícil, visto que o espaço era composto por uma cama de solteiro, um guarda-roupa de madeira antigo com vestígios de degradação pelos cupins e uma televisão de catorze polegadas em cima de um criado-mudo de duas gavetas.
Outro italiano talvez reclamasse das instalações, mas não Francesco. Ele já havia passado por situações piores e, além de tudo, sua recompensa por estar ali poderia valer muito mais.
Enquanto estudava os folhetos de liturgia para as celebrações que seguiriam no ano, alguém bateu à porta. Ele sabia quem era, por simples eliminatória de opções.
O Padre se levantou da cama, e com dificuldade, abaixou-se para guardar os folhetos em uma das gavetas do criado-mudo. Devagar, caminhou até a porta e a atendeu.
—Padre, desculpe-me pelo incômodo, mas já é hora.
A mulher, apesar de aparentar ser apenas uma simples dona de casa brasileira, falava um italiano impecável. Eliane Salgado fora uma das fundadoras da paróquia e a servia desde então. O contato indispensável com a Itália em suas funções a obrigava a aprender a língua de diversas maneiras. Atualmente, Eliane era a única apta a receber os novos padres, especialmente os da Itália. Isso a tornava dona de um segredo importantíssimo para a Paróquia e talvez para o resto do mundo.
Francesco concordou balançando a cabeça e com dois passos para fora se deu o espaço necessário para fechar a porta e trancá-la. Ele sabia que não podia ser simpático, muito menos demonstrar isso à sua Anfitriã. Devo ser imparcial, pensava e repetia o pensamento a si mesmo, criando convicção e coragem para agir daquela maneira.
A porta do pequeno quarto dava direto para uma escadaria de metal estreita, o que impediu Eliane de puxar conversa com o Padre, além do fato de perceber que ele não estava com uma cara muito amigável. Eliane estranhava aquilo em Francesco. Padres Italianos, ao menos os últimos que ela recepcionara sempre lhe pareceram muito carismáticos. O que aquele teria de diferente?
Os dois desceram as longas escadarias de metal em círculos até chegarem a uma porta de vidro. Eliane gesticulou um pedido de passagem enquanto tirava um volumoso molho de chaves de um dos bolsos do convencional par de calças jeans. O padre estreitou-se contra a parede do corredor de escadas dando espaço a ela para destrancar a porta, levando os dois ao sacrário da Igreja, sala onde as pessoas que compunham o altar reuniam-se alguns minutos antes de se iniciar as missas.
Padre Francesco então, pela primeira vez na noite dirigiu a palavra a Eliane, em italiano seco e ríspido:
—Para onde seguimos, dona Eliane?
Ela percebeu que o Padre estava querendo apenas acelerar as coisas, mas não se deixou levar pelo nervoso. Respondeu categórica, continuando seu caminha até a porta de saída da Igreja:
—Apenas siga meus passos, Padre Francesco. Posso lhe garantir que o que irei mostrar-te é de grande interesse — fez uma pausa para voltar a cabeça para trás encarar o padre. — E também muito importante. Espero que se lembre.
Francesco Cezari escutou tudo o que queria desde que chegara ao Brasil. Sua missão era estudar ali, os mais estranhos fatos e segredos. Esperava que aquele fosse o primeiro.
Caminhando atrás de Eliane, sentiu vontade de puxar alguma conversa, como sabia que era natural de seu feitio. Não resistiu:
—Padre Leo, hã? Uma figura bem consagrada por aqui. Na Itália também falavam muito dele. Foi realmente um caso de assassinato?
Enquanto atravessava a dupla porta de vidro, Eliane surpreendeu-se por um lado e sentiu monotonia por outro com a pergunta do novo padre. Era um milagre perceber que ele havia procurado uma conversa aleatória, mas sem dúvida, era uma curiosidade considerável. A polêmica de Padre Leo atingira o país inteiro, e também certas áreas na Itália, de onde ele descendia.
—Não temos dúvida disso. Ele fazia trabalho missionário por aqui, além de ser Padre. Tinha um barraco em uma das favelas da serra e costumava ficar por lá durante os fins de semana para tentar amenizar um pouco o grande índice de tráfico de drogas, de armas, e até mesmo da violência que estava em um pé incontrolável na época. Leo morreu por causa disso. Morreu por tentar salvar as pessoas do mundo perdido. Morreu como um mártir.
Francesco Cezari sentiu certa exigência de respeito no tom de voz de Eliane e captara a mensagem. Afinal, um acontecimento tão trágico deveria realmente ter mobilizado toda a comunidade.
—E quem o fez? Quem teve a coragem quando o trabalho dele era em prol de todos?
—Não foi coragem, padre. Foi covardia — Eliane abaixou a cabeça enquanto caminhava pelo pátio exterior da capela. — O medo de se perder o que se lucrou com o crime é muito maior que a resistência ao sangue frio.
Ele entendera perfeitamente o que Eliane quis dizer, e sentiu-se inocente após ouvir tal resposta.
—Os traficantes sentiram que poderiam ser gravemente ameaçados com a campanha de Padre Leo. Armaram a morte dele há muito tempo para que não houvesse suspeitas individuais quando o crime acontecesse. Dois meses depois do ocorrido, a polícia deu o caso como encerrado. Sem identificação do assassino.
Justiça eficiente existe no Brasil, pensou o Padre italiano, confirmando alguns boatos que ouvira sobre o país no mundo afora. Ao analisar tais fatos, Francesco começou a se questionar. O que será que aquela paróquia especificamente escondia? A curiosidade só aumentava e ele não deixava de ligar os pontos do resto da conversa. Teriam eles um depósito de drogas ou armas em solo sagrado? Faziam justiça com as próprias mãos contra o crime organizado da cidade? Ele sabia que essas perguntas não faziam sentido. Seria tudo muito normal.
O pátio de fora da Igreja levava também a um prédio um tanto mais alto que a torre da capela, onde trabalhos sociais eram realizados. No primeiro andar se encontrava uma sala de vídeo, a cozinha e uma sala especial onde os coroinhas se reuniam. O segundo andar era composto por seis pequenas salas onde lecionavam catequese. O terceiro andar era um grande anfiteatro, extremamente moderno, utilizado para aluguel para grupos de teatro e musicais como fonte de arrecadação de fundos para manter o local. Dona Eliane e Padre Francesco, porém, seguiram um pouco além do anfiteatro.
—Prepare as pernas um pouco mais padre. Temos ainda um curto lance de escadas para subir.
Francesco procurou, mas por pouco tempo outro lance de escadas e o encontrou logo atrás de si. Eram alguns poucos degraus, mas a idéia de subi-los ainda assim o cansava, considerando os tantos que ele atravessara alguns segundos atrás.
Eliane continuou percorrendo os degraus e no final deles, abaixou o corpo para abrir
uma pequena porta de madeira. Quando o fez, sumiu das vistas do padre que acelerou os passos para alcançá-la.
A pequena porta lançava aos olhos um grande galpão coberto com um forro de madeira por todos os lados, tanto no chão, quanto no teto, quanto nas paredes. Mas não foi aquilo que chamara a atenção de Francesco.
Telas de pintura se estendiam pelo lado esquerdo do galpão enquanto que montes de instrumentos musicais se amontoavam no canto direito. Mesas fixadas ao forro de madeira ficavam no centro da sala e próximo aos instrumentos musicais logo à frente dos olhos do padre, esculturas de diversas formas pareciam encará-lo.
—Padre Francesco, este é o ateliê de arte da paróquia Família de Nazaré.
Francesco ficou confuso. Como um ateliê, onde provavelmente crianças e jovens freqüentavam diariamente poderia esconder um segredo de tamanha gravidade?
—Dona Eliane, perdoe-me a franqueza, mas pensei que fosse me mostrar algo que tivesse mais importância, algo realmente grave, de comprometimento e sigilo. Desde que pisei nessa igreja, fui informado que ela guarda um grande segredo. Quer-me dizer que é apenas um ateliê de arte?
—Padre, tenha certeza de que o que estou para lhe revelar é algo suficientemente grave para levar a população mundial a um pânico absoluto. É um dos maiores segredos da história
Ele olhou em volta do ateliê, esperando que sua própria inteligência lhe mostrasse o segredo. Não conseguiu e voltou os olhos para a anfitriã, que riu ao perceber que o padre sabia pedir com os olhos.
Eliane apontou um local a ele e lhe deu instruções de olhar exatamente para o objeto em questão.
—Mas... É só uma caixa preta. Aparentemente muito bela, por ser ornamentada.
Eliane puxou de dentro de um dos bolsos da calça jeans um papel, uma folha de sulfite completamente dobrada e a entregou nas mãos do padre.
—Quando terminar de ler, encontre-me lá embaixo, na saída deste prédio. Aposto que o senhor terá muitas perguntas a me fazer.
Francesco não fez objeção, sabendo que em qualquer circunstância era melhor que ele estivesse sozinho ao saber de um segredo da magnitude que lhe haviam descrito.
O padre desfez cada pequena dobra da folha de papel e foi percebendo que as letras eram escritas de uma maneira muito antiga, porém com as modernas marcas de uma fotocópia, uma xerox. Mulher esperta.
A partir do momento em que ele colocou os olhos no papel, não os tirou até ler a última linha, boquiaberto. Olhava para o sulfite e para o objeto de novo, até assimilar o máximo que conseguia. Com segundos de pensamento, sabia que fora enviado para o lugar certo. Ele também já tinha suspeitas mais claras sobre o assassinato de Padre Leo.
Agradecendo mentalmente mais uma vez pela anfitriã tê-lo deixado a sós com a revelação, ele puxou do bolso seu celular e discou uma grande série de números. Do outro lado da linha, um inglês oriental penetrou forte em seus ouvidos. Ele respondeu imediatamente:
—Aqui é Francesco Cezari. Preciso falar com o diretor, com urgência. Informe-o que são as notícias que ele esperava.