Mais de uma hora de espera. Estão querendo ver esse lugar em pedaços?
Sophia Goldman sabia que não podia, mas começou a ponderar se largar sua vida em Miami valeria a pena após ter chegado ao cubículo onde agora se encontrava, que mais parecia uma clínica hospitalar do que um escritório. Quatro paredes brancas e um balcão a frente de três fileiras de bancos estofados cor vinho. Atrás do balcão, uma prateleira de arquivos se estendia em seu comprimento, centralizada na parede. Ao lado esquerdo, um estreito corredor aparecia aos olhos de quem estivesse sentado.
Sophia se segurava à poltrona para não levantar e avançar o corredor, mas infelizmente, a assistente que a acompanhara até o local pedira com educação para que ela não o fizesse. O pedido educado não era problema algum, mas manter a etiqueta em tais momentos era como um código de honra para a jovem americana. Ela sabia de suas responsabilidades e qual era seu lugar.
O curioso era que dentro da uma hora em que ela permaneceu sentada naquela sala morta e silenciosa, nada aconteceu e ninguém além da assistente sorridente cruzou o lugar.
O tempo foi passando e, de repente, o único som audível dentro do cubículo passou a ser o irritante tic-tac do relógio da parede acima do balcão. Os ponteiros agora mexiam-se claramente percorrendo os quatro algarismos romanos. Sophia já podia até ver o ponteiro que marcava as horas se mexer em seu lento eixo de giro.
Aquilo fora o cúmulo para a moça que se levantou da poltrona e se preparou para utilizar sua garganta. Ela se acalmou imediatamente, ao ouvir o bater da porta de madeira do cubículo soar.
—Com licença.
Os olhos de Sophia pararam de encontro com os do homem que adentrara a sala que lhe irritara durante uma hora, essa que mais lhe pareceu um dia inteiro. Ela não pôde evitar a atração natural que sentiu instantaneamente pelo moreno de olhos negros que parou por um momento a trocar olhares com ela.
Ele era magro, porém não esquelético. Sophia considerava aquele tipo de corpo perfeito, vendo que a camiseta amarela salientava as pequenas curvas de músculos nos braços e no tórax. Usava calças jeans e um par de tênis esportivo branco. O rosto coberto por um cavanhaque discreto misturava a juventude com o ar de maturidade. O bronze que cobria sua pele era bem tropical, o que a fez julgar que o rapaz fosse latino.
Os olhos de Paulino de Souza tentavam decifrar o verde cintilante dos olhos da moça que encontrara de pé na sala de espera que o amigo Barry Quinn indicara para que eles se encontrassem. Era engraçado, mas Paulino o havia esquecido completamente.
A moça que tomara totalmente sua atenção tinha a pele branca e ao longe parecia ser extremamente macia e os cabelos castanhos ondulavam mechas loiras sobre o rosto, descendo até a altura dos ombros. O corpo esbelto e torneado milimetricamente se destacava nas calças pretas e justas de poliéster e na blusinha branca levemente decotada, denunciando os seios médios que o mestre recém-formado não evitou reparar.
É melhor não estar de brincadeira comigo, Dr. Quinn, pensou, tentando descobrir em silêncio de onde viera tão bela moça que de repente estava parada com os olhos magneticamente presos aos dele, no mesmo lugar, na mesma hora, e sozinha.
A hipnose se desfez quando um som de porta batendo ecoou na sala de espera. Ao despertar, Paulino desajeitado ergueu a mão direita em direção a moça, segurando suas pastas e cadernos com a outra.
—Prazer, meu nome é Paulino de Souza. Professor de Filosofia e Teologia.
Sophia sentiu-se desconcertada, mas manteve a postura de uma dama apertando a mão do rapaz e se apresentando, devolvendo seu inglês perfeito ao amador que ele havia demonstrado:
—Sophia Goldman, alquimia e ocultismo. Muito prazer, professor.
Os dois voltaram por alguns segundos ao silêncio desconcertante após as apresentações, o que não deixou Sophia muito à vontade. Não demorou muito até que ela tentasse puxar papo com o professor de novo:
—Estranho o lugar parecer completamente vazio e de repente ouvimos uma porta bater com um estrondo ao fundo, não?
—Nem me fale — o rapaz sentou-se, arrumando as tralhas no colo. — Mas tenho certeza que isso é coisa do louco do meu amigo que me chamou aqui.
Amigo? Ao ouvir aquilo, Sophia se interessou pela conversa. Estar dentro do SSRCC era uma parte de seu plano que já estava prestes a se concluir, mas conhecer alguém que já tivesse contatos tão próximos facilitaria muitas coisas.
—O senhor tem um amigo aqui, professor?
—Sim, sim. É o dr. Barry Quinn.
Touché. O homem que a entrevistaria era o amigo do professor.
Cansada de manter a postura, dirigiu-se para perto do mais novo colega, sentando-se ao lado dele. Arrumou a bolsa em seu colo, pousou as mãos sobre ela e devagar cruzou as pernas, a esquerda sobre a direita.
—A boa notícia é que estamos esperando pela mesma pessoa, professor.
—Imaginei — Paulino sorriu para a moça. — Ouvi dizer que este lugar tem recebido muitas pessoas, de todos os ramos. Espero ter vindo para o lugar certo.
Tal frase tocara o coração de Sophia profundamente. Ela já não sabia mais para onde estava indo. Tinha de mudar de casa, de país, muitas vezes até de nome para continuar com seu trabalho. Será que daquela vez, tudo poderia terminar?
—Eu também, professor. Eu também.
—Por favor, me chame de Paulino. Acho que seremos colegas a partir de hoje, certo?
Sophia sorriu e deixou que o rapaz o percebesse.
—Okay, okay. Contanto que passe a me chamar de Sophia. Acredito que o respeito deve ser mantido no mesmo nível.
—Considere este acordo feito — os dois se olharam mais uma vez, como fizeram quando Paulino entrou pela primeira vez naquela sala. Ele sentiu o equilíbrio de freqüências em que os dois estavam, algo como sentira poucas vezes antes.
Sophia percebeu que estava preste a cair na hipnose de olhos mais uma vez e se fez despertar antes que ficasse por mais tempo em tal transe. A etiqueta era algo que ela ainda precisava manter. Rapidamente, pensou em algo fútil para esticar a conversa com o professor, não sabendo quanto tempo mais teria de ficar esperando.
—Então, Paulino — fizera questão de frisar o nome para tornar a conversa agradável, — de onde vem? Seu nome e seu rosto me deixaram curiosa, mas também em dúvida. Além do mais, seu inglês não é dos melhores.
Ela sorriu antes que Paulino pensasse que foi uma ofensa, que logo sorriu de volta demonstrando ter entendido a intenção.
—É uma longa história, Sophia. Mesmo assim não justifica o meu inglês não ter melhorado em tantos anos...
No momento em que ia contar sua história, Paulino fora interrompido pela figura que avançara o estreito corredor ao lado do balcão. Baixinho, gordo, um cavanhaque claro no rosto em contraste com o cabelo escuro e lambido para os lados, chegando a altura dos pequenos óculos arredondados. Mas nada era mais confirmador que o sanduíche gigante que pesava em suas mãos.
—Não acredite nele, moça. Nada justifica o fato de falar esse inglês medíocre depois de estudar por quase 8 anos em Oxford. Além do mais, não temos tempo para essa conversa agora, certo Little Paul?
Barry Quinn estava agora na frente de seus convidados com um belo sorriso amarelo no rosto, sem saber que o clima não estava nem um pouco amigável se tratando do tempo que os fizera esperar. Ao perceber que não estava sendo bem recebido, lembrou-se de pedir desculpas pelo atraso:
—Meus amigos, peço que me perdoem pelo enorme incômodo de permanecer nessa sala durante tanto tempo. A questão é que estou com muito trabalho ultimamente e eu acabei me esquecendo de vocês.
Paulino sorriu. Conhecendo a peça à tanto tempo, não resistira a perdoá-lo.
—Larga desse papo furado, Barry! Você devia estar tirando um belo cochilo lá dentro!
Barry Quinn sorriu de volta ao amigo que se levantou para ir cumprimentá-lo. Um forte abraço não pôde ser evitado pelos dois que há muito tempo não se viam. Após alguns tapas fortes nas costas um do outro, seguraram-se pelos braços, não evitando a felicidade de terem se encontrado mais uma vez.
Sophia ainda estava sentada em uma das poltronas da sala, observando a cômica cena entre os amigos, tentando se esquecer do tempo que estivera esperando por alguém ali. Quem não os conhece diria que eles são extremamente homossexuais.
—Não vamos nos estressar Little Paul. Você reclama como se não tivesse gostado de passar esse tempinho ao lado da bela doutora Sophia — Jogando a cabeça de lado, desviando o olhar do corpo de Paulino e correndo-o direto para Sophia, Quinn deu uma piscadela. O rosto da moça praticamente se pintou em rubro, assim como as orelhas de Paulino.
—Sinceramente, doutora Sophia, peço zilhões de desculpas. Não acredite em Little Paul quando ele diz que eu estava dormindo. A verdade é que realmente estou cheio de trabalho, os senhores não fazem idéia do quanto.
Sophia, ainda sentada, arrumou as mechas do cabelo que estavam cobrindo seu rosto para poder encarar o rechonchudo anfitrião.
—Até aceito suas desculpas, doutor Quinn, mas preciso de uma explicação urgente sobre o que eu vim fazer aqui exatamente.
O professor ao ouvir a reivindicação da nova colega encarou o amigo com olhos pedintes:
—Estou no mesmo barco, camarada.
—Fiquem tranqüilos, amigos. Conversaremos sobre esses detalhes agora mesmo, durante um bom gole de café. Acompanhem-me, por favor.
Barry Quinn abriu o balcão para o corredor ao lado esquerdo e o seguiu. Paulino olhou para Sophia logo atrás que estava levantando sorridente agora que finalmente sua situação seria resolvida.